Todo mundo tem um tio, tia ou a avó que um dia estava tranquilamente cuidado da vida quando o telefone tocou e do outro lado bandidos ameaçavam matar seu “sobrinho mais velho”, “a sobrinha mais nova” ou ainda o “neto que tem um carro preto”.

Sempre conhecemos alguém que, por não ter tio, sobrinho ou neto, quando ouviu dos bandidos:

“Estou com seu sobrinho mais velho e vou matá-lo caso você não entregue R$ 10.000 imediatamente.”

Ficou tranquilo do outro lado da linha, deu papo e reagiu às ameaças como se estivesse sofrendo, simplesmente por não ter como querido ninguém que se enquadre nas características pelo meliante descritas.

Todos temos histórias nesse contexto.

Mas a Júlia a partir de hoje vai ter uma…

“Amor, atende logo esse telefone. Estou com as mãos sujas aqui na cozinha.”

O pai de Júlia atravessa a cozinha e, num pulo só, atende o telefone:

“Alô!”

Silêncio.

Da parte do Sr. Amaro.

Quem telefonou tinha muito o que falar:

“Eu sei que o senhor tem uma filha, a Juliana. Estamos com ela aqui, caso não siga nossas instruções, iremos matá-la.”

Enquanto o sequestrador falava o Sr. Amaro ouvia ao fundo:

“Socorro pai. Socorro, eles estão me batendo.”

Sr. Amaro, homem tranquilo, ponderado, hábil com as palavras e pensamento rápido, falou:

“Filha minha? O quê?”

Os bandidos repetiram oque já tinham dito, usando um vocabulário que lhes é peculiar. Detalhando o que já estavam fazendo com a pobre moça. Enquanto ela, desesperada, gritava e pedia que ele atendesse rápido todas as exigências.

É claro, bem antes de dar a entender que a história precisava ser repetida, ele já sabia do que se tratava.

“Juliana? Não me lembro desse nome.”

Disse ele calmamente.

O bandido, cada vez mais irritado:

“Sua filha! Não se lembra da sua filha?”

“Juliana? Não me lembro dessa filha.”

“Nós vamos matar, sua filha!”

Essa era a frase que eles repetiam a cada pouco.

Depois de um curto silêncio, Sr. Amaro encerrou a conversa:

“Meu filho, faz esse favor, faz. Essa filha vai me dar tanta dor de cabeça. Quando essa história chegar aqui em casa, que eu tenho outra filha que Marisinha não conhece, vou estar tão enrolando que você não faz ideia. Então, companheiro, faz mesmo esse favor, pode colocar a moça para dormir o sono eterno.”

Falando isso, desligou calmamente.

Passando pela porta do quarto da filha a caminho da cozinha:

“Júlia que fique bem claro: você eu defendo até à morte, mas sua irmã Juliana, a qual acabei de saber que é minha filha, essa eu disse que podiam juntar os pés.”

Vívian Antunes é cronista do cotidiano, mora em Brasília e ajunta suas letrinhas toda segunda, quarta e sexta-feira no www.viviantunes.wordpress.com

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